Às vezes fico de saco cheio, de ser o bonzinho, o certinho... Sou de descendência oriental e desde minha infância sofro com apelidos: Japa, Japonês, Zóio Puxado... e brincadeiras. Quem não ouviu ou falou o seguinte verso: "Japonês garantido, come repolho peida fedido." , ainda cantarolou os versos: "Japonês tem quatro filhos..." (em alusão ao hino da Independência: Já podeis ó Patria filhos...) ou aquela piada: "Garanta uma vaga na faculdade, mate um japonês". E mais: "Abre o olho japonês!". Isso seria bullying ? No futebol era o último a ser chamado (japonês não joga bola!), o meu esporte então seria o tênis de mesa e o karatê. Todos acham que japonês é mestre no karatê, que todo japonês luta bem as artes marciais. Ledo engano. Nasci no Brasil, ou seja, sou brasileiro, amo esta terra - embora me sinta enojado de tanta hipocrisia ,injustiças e impunidades - aqui casei, tenho uma filha que talvez não sinta na pele as mesmas brincadeiras que sofri. Até quando me elogiam, o fazem de maneira a me excluir: "Nossa, admiro muito o seu povo, é tão educado, inteligente, trabalhador..." ora, porque "meu povo"?
Mesmo hoje já bem vivido, ainda tenho que ouvir essas piadinhas. Isso ainda me dói. Imagino o que sofrem os descendentes afro, os deficientes físicos, os excluídos. Isso marca a pessoa, machuca, fere profundamente. Hoje já tenho mais saco e até brinco às vezes, mas que dá vontade de mandar o cara tomar no c* e mandar se fuder, ah, isso dá!
Sabe o que é mais estranho? Quando estive no Japão, entre os meus "parentes", "meu povo", onde posso passear tranquilamente sem ninguém me olhando estranho por ter meus "olhinhos puxados", lá TAMBÉM sou discriminado: lá me chamam de BRASILEIRO. Que coisa! Sou um pária ? No Brasil sou Japonês e no Japão sou Brasileiro!
Vai entender...
